sábado, 11 de abril de 2009

O Regimento do Congresso


Já na saida para o Congresso, eram distribuidos importantes documentos.
Um deles era o Regimento do Congresso que iniciava com as regras para nomeação de delegados e inscrição de escolas. Sendo tres delegados para os primeiros 500 alunos e mais um por fração ou grupo de 500 alunos.
A seguir definia o papel das Comissões de Organização; Recepção, Alojamento e Alimentação; Finanças; Infra-Estrutura e Cultural.
O programa do Congresso era detalhado a partir do artigo 14°, e previa a montagem de seis grupos de debate:
Grupo 1 - Carta de Principios e Estatutos
Grupo 2- Projetos da UNE
Grupo 3 - Eleições da UNE
Grupo 4 - Universidade
Grupo 5 - Realidade Brasileira
Grupo 6 - Lutas dos Estudantes
Após essa maratona de debates, a Plenaria Final decidiria pelo voto dos congressistas conforme as regras estabelecidas no documento.
Enfim, fundamental para saber como participar do Congresso.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

São Paulo. Saindo para o Congresso.



A Avenida Doutor Arnaldo concentrou a maior delegação de São Paulo, dezenas de onibus partiram dali, da Medicina da USP.
O momento era de euforia, certeza da vitória. Eramos muitos e tinhamos o apoio da sociedade que já não suportava os militares no governo.
Outras caravanas de delegados sairam do interior de São Paulo, eramos a maior delegação em direção ao Congresso.
Separados por cursos,Comunicação, Direito, Medicina, os onibus iam formando sua população que conviveria em dois dias de viagem as alegrias e apreenções proporcionadas pela juventude e as forças da repressão.
Além de muita discussão política e cantoria.

Dando a Letra


Antes da partida, as delegações de São Paulo se concentraram na Medicina da USP, em frente ao Cemitério do Araça.
Na foto o agrupamento liderado por Paulo Massoca, que discursa, recebe as últimas instruções antes do embarque. Divididos por cursos, os militantes estariam espalhados pelas dezenas de onibus, assim era preciso saber como se comportar, as teses a defender,os pontos de encontro para avaliações, e outras estrategias para conquistar os votos indefinidos, dos chamados independentes.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Declaro Aberto o 31º Congresso da UNE


Coube a José Serra o seguinte discurso.
" Em nome dos estudantes que construiram a UNE,
na luta contra o facismo e a ditadura do Estado Novo.
Em nome dos estudantes de minha geração,
que lutaram por um futuro de dignidade humana,
de igualdade social e de democracia para o povo brasileiro.
Em none da UNE que presidi e que foi devastada,
e incendiada pelas forças da repressão,
como baluarte que era da resistencia democratica e anti golpista.
Em nome dos estudantes que durante quinze anos de prepotencia,
arbitrio e violencia repressiva,
souberam manter viva a chama da resistencia e do protesto.
Em nome daqueles que nesta dura caminhada
foram expulsos de suas escolas, exilados, presos, torturados,
Em nome dos estudantes que foram mortos,
companheiros de ideal democrático que legaram a todos nós,
o protesto mudo e generoso dos seus corpos mutilados.
Em nome de todos nós, estudantes de ontem e de hoje,
de todos nós que lutamos para livrar a Nação das amarras desses quinze anos de regime ditatorial.
Declaro aberto o 31º Congresso Nacional dos Estudantes".

sábado, 4 de abril de 2009

Instalações do Congresso



Esta imagem mostra a precariedade das instalações onde ocorreu o Congresso, a ausência de proteção nas escadas, os tapumes de madeira bloqueando uma possivel queda no vazio do vão central do que seria o Centro de Convenções de Salvador, cedido pelo então governador Antonio Carlos Magalhães.
Outra ironia do periodo. Aquele local parecia uma provocação do tipo:
Quer fazer, então é assim, precario e sem proteção, permitido mas ameaçado, autorizado mas vigiado e reprimmido.
Mas quem saiu vitorioso foi quem acreditou em um novo tempo.

terça-feira, 31 de março de 2009

A Praça é do Povo



Em Salvador, durante o tempo que durou o Congresso, não só a Castro Alves, mas todas as praças eram do povo e principalmente dos estudantes congressistas. Era ironica a contradição do visual urbano, quase surrealista.
Nas ruas a policia comum e a do exercito se exibiam ostensivamente, a primeira com suas viaturas tenebrosas e a outra com metralhadoras, câes e até veiculos de combate, tudo para intimidar o que já não tinha nenhum pudor.
Os jovens, cabelos longos, barbas, jeans, camisetas, sem camisa, sem lenço, sem documento, mas a cabeça cheia de idéias circulavam livremente pela cidade sob o sorriso do povo e a carranca dos militares.
Na foto, após a chegada a Salvador os estudantes se concentravam na praça, em frente a sede do PMDB, aguardando um alojamento.

sábado, 28 de março de 2009

A viagem para o Congresso de reconstrução da UNE

Saímos de São Paulo, no dia 27 de maio de 1979, rumo ao Congresso de Reconstrução da UNE, que se realizaria nos dias 29 e 30 em Salvador. Éramos muitos, em muitos ônibus, não me lembro quantos – talvez uns 100. No meu ônibus, cerca de 40 estudantes, representantes dos “centrinhos” da USP, como costumavam chamar os Centros Acadêmicos.

Na ansiedade esfuziante, não diferíamos muito dos ônibus de excursão do ginásio, nem daqueles das torcidas de futebol. No entanto, tínhamos consciência de que aquele era um momento histórico: discutíamos com paixão o socialismo, a guerrilha, a ditadura, os rachas nas organizações clandestinas, os professores, as relações afetivas, o aborto, a falta de grana, o amor livre, morar sem os pais, as drogas, o cinema, Marx, Lenin, Engels, Trotsky, Stálin, Brecht, Chaplin, Glauber, Vittorio de Sica... enfim, o mundo.
No ônibus, delegados eleitos da Biologia, Ciências Sociais, Geografia, Geologia, História, Letras, Psicologia e Química, prontos para enfrentar quase 40 horas de viagem – na verdade, durou mais de 50 – que nos levaria ao congresso. Sabíamos que havia riscos: a polícia estava presente nas principais estradas: volta e meia paravam os ônibus e revistavam todos de forma intimidatória.
Na chegada, ao entrarmos na avenida do Centro de Convenções, onde se realizaria o congresso, fomos recebidos em ovação pelos que lá estavam.
Só de São Paulo éramos quase 600 delegados. Ao chegarmos em Salvador, nos juntamos com os outros estudantes do Brasil inteiro, somamos então 10 mil. A cidade nos recebia agitada, em festa, mas povoada de militares e membros da tropa de choque, com escudos, capacetes, cachorros, cavalos e armas.
Eu tinha 20 anos, fazia parte da diretoria do Centro Acadêmico da Química da USP, e havia sido eleita para representar os estudantes do Instituto de Química. Era pura emoção, afinal, rumávamos para a reconstrução da UNE, colocada na clandestinidade pela ditadura militar em 1964.

trecho do depoimento de
Thais Sauaya Pereira
Leia texto completo em
http://www.facasper.com.br/cultura/site/ensaio.php?tabela=&id=97

Centro de Convenções



Todos os cantos do inacabado Centro de Convenções de Salvador serviam para acomodar os congressistas, todos sabendo fazer a hora e não esperando acontecer.
As escadarias, sem qualquer proteção, eram pontos privilegiados pela ampla visão da mesa do Congresso.
A verdade é que as acomodações eram péssimas, com a maioria dos presentes sentados no chão, mas de lá ninguem saia sem ver reconstruida a entidade que serviu de vanguarda na resistência ao golpe militar em 1964, que insistiu bravamente durante quatro anos na contestação do regime.
Era 1968 e o AI-5 colocava na clandestinidade a representação estudantil. Dai até 1971, seus dirigentes abnegados usavam nomes falsos e dormiam em onibus para não serem presos.
E então a UNE desapareceu junto com Honestino Guimarães, seu ultimo presidente.
Mas em 1973, na Usp, o que parecia morto já renascia.
E em 1979 se conquistava a obrigação de reconhecer a entidade como vanguarda na defesa do fim do regime militar, ao empunhar publicamente a palavra de ordem:
"Abaixo a Ditadura"

BLOQUEIO


Bloqueio na estrada organizado pela policia militar e rodoviária, um dos muitos.
Assim de memória lembro de Jacarei, Guaratingueta, Cruzeiro e Divisa com o Rio de Janeiro na Dutra.
Ai resolvemos abandonar esta estrada e desviar da repressão indo na direção de Vassouras. Ledo engano, por lá também haviam barreiras.
Neste caso percebam, vários onibus detidos, todos os documentos recolhidos.
Suspense, negociações e então começam a liberar um por um, em intervalos de 15 a 30 minutos, logo descobrimos que os onibus liberados partiram com documentos trocados para serem parados logo depois em outra barreira.

ABERTURA DO CONGRESSO


Ato de Abertura do 31º Congresso da União Nacional de Estudantes - UNE. Ótima oportunidade para identificar os personagens da foto. Figuras carimbadas e emblemáticas da antiga e nova esquerda.
Bem no canto direito discursa José Serra, como ex-presidente gestão 1964, ano do golpe militar. Nessa época ele integrava a AP, Ação Popular, organização derivada da Juventude Universitária Católica - JUC.
Ao seu lado Rui Cesar que seria o primeiro presidente da UNE reconstruida.
Observando os dois estão os personagens a serem identificados.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Veja 30 maio 1979



No calor a hora, a revista Veja deu capa para a UNE. O Congresso acontecia em Salvador e a revista perguntava sobre o futuro da entidade. Naquele momento o tema UNE dava Ibope e diversos veículos de comunicação noticiavam o evento. Diferente de hoje, quando a Veja critica a mobilização dos estudantes ocorrida na USP, o movimento estudantil servia aos interesses de uma vasta parcela da sociedade que queria o fim do regime militar.

Depoimento colhido na Internet

A reconstrução da UNE foi um marco. Não teve AI-5, nem general que conseguiu impedir o congresso de reconstrução em Salvador. Ali, nos braços do povo baiano, milhares de estudantes fizeram a festa. E que a policia tentasse algo contra. Iriam ter que acabar com a população da cidade, que apoiou abrindo portas e janelas para hospedar os participantes.
Vendo que a maré não estava prá peixe, os repressores haviam mudado a tática. Tentaram deter os líderes antes que eles chegassem a Salvador. Até listas negras foram distribuídas em aeroportos. A ordem era obstruir, deter, atrapalhar. Pelo menos foi o alerta chegado aos estudantes.
Barreiras policiais foram montadas na fronteiras entre os estados. Não adiantou. Todo mundo chegou lá. Os líderes de Pernambuco, por exemplo, foram levados por voluntários insuspeitos e desconhecidos das fichas policiais em seus automóveis particulares. Enquanto a policia vasculhava os ônibus com os delegados representantes a caminho, a liderança passava livremente as barreiras, dando sinais aos companheiros nos ônibus inspecionados, que após liberados seguiam gritando o refrão: Povo e soldado estão do nosso lado! O congresso foi um duro golpe na ditadura e foi uma farra.
Texto publicado pelo site ABK NET em 19/07/2005